29 fevereiro 2008

Prosperidade x Abundância


Uma chamada ao Contentamento Verdadeiro

"Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece." (Filipenses 4: 11 - 13)

Antes de qualquer coisa gostaria de falar que não tenho por intenção falar ou atingir igreja ou denominação alguma, mas refletirmos sobre a real situação da nossa igreja hoje. Peço que leia com cuidado. Lembrando todo o texto aqui escrito é um conjunto, então citar partes do texto fora desse contexto é pretexto para confusão ou difamação. Somos corpo de Cristo e assim, devemos viver a unidade. Obrigado.

Hoje já não é segredo que a nossa geração tem levantado duas bandeiras: a da prosperidade material e a da prosperidade “espiritual” (aqui não falo sobre a palavra espiritual no seu real sentido, mas na pseudo-espiritualidade pregada por tantos, por isso as aspas). A primeira diz que se você tem passado por dificuldades financeiras, amorosas ou de saúde, você está vivendo no pecado e assim, afastado de Deus. A segunda diz que se você é batizado pelo Espírito Santo, você obrigatoriamente deve falar em línguas ou interpretá-las, profetizar (e aqui não me refiro ao que a Bíblia nos ensina que é admoestar, consolar e exortar, pois quando os profetas falavam sobre o futuro era prevendo um juízo decorrente do pecado, que por tantas vezes eles foram instrumentos confrontadores de Deus), interpretar sonhos e por aí vai... Se você não tem sido "próspero" em nenhuma dessas duas áreas: cuidado, você corre um grande perigo de não ir ao céu. Eu mesmo, coitado de mim, corro o grande risco de ficar pra trás, pois não "sou próspero" em nenhuma dessas duas áreas. Na primeira, vivo na dependência total de Deus. Sou filho de pastor, sou seminarista (em breve, se Deus assim permitir serei ordenado também pastor), e durante toda a minha infância, adolescência e mocidade, nossa família passou por algumas dificuldades. Mas Deus não nos deixou faltar nada, Ele cuidou de cada pequena coisa, cada pequeno detalhe. Na segunda área, mesmo pregando, cantando e exercendo meu ministério e chamado, por meio de ferramentas que Deus me deu para pregar o Seu evangelho, certa vez questionaram a minha santidade porque não falo em línguas, ou faço "outras coisas". Aí me falaram que eu nunca tinha sido batizado pelo Espírito Santo. Nossa, minha "auto-estima espiritual" ficou no chão. Orei a Deus buscando “os melhores dons” (uma lista bem seleta e específica, defendida e imposta por algumas igrejas) e nada. Me senti péssimo na época, eu tinha apenas 17 anos. Hoje, mais maduro, não só sei que fui batizado pelo Espírito Santo quando eu me converti como sou selado por Ele. Hoje eu sei que existem muitos dons e o corpo de Cristo é marcado pela diversidade dos mesmos (ver 1ª Coríntios 12: 12-31).

O que nos leva a pensar que somos mais ou menos santos pelo o que temos ou pelo o que podemos demonstrar? Desde quando os nossos bens e os nossos “dons” (e coloco os dons entre aspas devido a famosa lista, já citada por mim no primeiro parágrafo) são um sinal de santidade e de como somos usados por Deus. Devemos frutificar isto é certo e os dons servem pra isso, mas a Bíblia não determina quais são mais espirituais ou não, e quando fala, coloca o amor em primeiro lugar, dom que falta a tantas igrejas que se julgam mais santas do que as outras. E desde quando escolhemos quais dons queremos ter? Deus distribui os dons conforme a Sua vontade e como Ele quer nos usar. Alguns dizem, aqui falo dos adeptos da prosperidade “espiritual” (pseudo-espiritual, como já foi explicado no primeiro parágrafo) que se você não ora em línguas, se não profetiza, se não interpreta sonhos ou línguas, você não é batizado pelo Espírito Santo. E dentro dessa linha de prosperidade disso, daquilo, acabamos por pregar idolatria aos bens, aos dons, esquecendo que maior é quem nos dá do que aquilo que nos é dado. Jesus não veio nos trazer uma prosperidade material e nem muito menos “espiritual” (pseudo-espiritual, como já foi explicado no primeiro parágrafo), mas sim uma prosperidade de vida, e vida eterna (aqui cabe o real sentido da palavra espiritual), vida em abundância. Nossa geração padece do mal de que somos aquilo que demonstramos, quando o próprio Jesus adverte chamando os fariseus de sepulcros caiados, pois se preocupavam muito em orar na frente de todos, de demonstrar muitas coisas, eram “os espirituais”, mas eles não viviam e nunca viveram uma vida que agradava a Deus. Não havia amor em seus corações, eles não sabiam o significado de graça, misericórdia e fidelidade com Deus. Não somos e nunca seremos julgados pela quantidade de bens ou pela quantidade de dons que temos, mas em como eles tem sido usados e com que motivação.

Abri minha meditação com Filipenses 4:11-13, eu sei não esqueci. Por muito tempo demorei a entender o que queria dizer “tudo posso naquele que me fortalece”. Hoje, só não entendo como eu vivo esta verdade. Esse texto será versículo-chave que será impresso na minha aliança de casamento: Fp.4.11-13. É uma grande verdade! Deixa eu contar uma história: "Uma vez, um rapaz que namorava uma menina a distância, questionava a Deus porque a ela morava tão longe dele, porque sempre que viajava pra cidade dela e tinha que voltar logo pra sua cidade; porque sempre tinha que falar com ela no celular de forma apressada ou só podia vê-la pela webcam e ouvir a sua voz pelo microfone. Deus me disse: 'por que você não me agradece por tê-la conhecido, por ter condições financeiras de viajar pra sua cidade, telefonar pra ela ou até mesmo vê-la e ouvi-la pelo computador?' Na mesma hora ele agradeceu a Deus e deixou de viver descontente com o que ele não tinha e agradecido por tudo o que tinha, sabendo que foi dado por Deus".

O texto de Filipenses ensinou pra ele, e nos ensina também, a viver o “contentamento verdadeiro”. Devemos nos contentar em toda e qualquer situação, seja de riqueza, ou de pobreza, seja de abundância, ou de escassez, pois devemos confiar em Deus e é Ele que nos fortalece, por isso podemos todas as coisas. Jesus nunca pregou prosperidade material, mas em vivermos de uma maneira satisfeita com o que Deus nos dá e nos adverte de que Deus sabe cada necessidade nossa e quer supri-las, mas devemos colocá-lo em primeiro lugar (Mateus 6: 25-34), e não bens ou dons.

Sobre a tão difundida, e até agora pouco abordada, "Teologia da Prosperidade" (aqui só material), que usam o texto de Deuteronômio 28 totalmente fora do contexto e do propósito, impondo a nós uma mentalidade errada e equivocada de “vida em abundância”, cito e também faço minhas as palavras de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, quando questionados se Deus teria poder para libertá-los, uma vez que estavam sendo julgados e a morte lhes esperava por terem sido fiéis a Deus e não se curvado a estátua que Nabucodonosor levantara, e conscientes de quem era Deus e do que Ele era capaz disseram:

“Ó Nabucodonosor, quanto a isto não necessitamos de te responder. Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e das tuas mãos, ó rei. Se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste.” (Daniel 3: 16-18)

Eles sabiam que podia estar nos propósitos de Deus não livrá-los, mas não duvidaram Deus e da Sua fidelidade, pois sabiam que Deus estava no controle de todas as coisas e se realmente não fossem livrados por Deus e eles morressem, eles sabiam que Deus não deixaria de ser Deus. Deus permitiu que eles fossem para a fornalha ardente para que a Sua glória fosse manifestada. Eles foram para a fornalha, mas o fogo não queimou um fio de cabelo de nenhum deles.

Como nós vemos a Deus? Será que Ele para nós é maior que as suas bênçãos? Que os seus dons? Será que nos tornamos dependentes do que Ele tem pra nos dá ou simplesmente dependentes dEle?

Chegou a hora de irmos contra a nossa cultura e contra essas duas bandeiras que têm transformado Deus num serviçal e nos transformado em super-heróis, que não passam por dificuldades financeiras, materiais ou físicas, que idolatram seus bens e os seus dons, que esqueceram e têm se esquecido de adorar a Deus.

Parafraseando o Pr. John Piper, digo: “Deus é Deus. Não alguém que vive exclusivamente para dar-nos carros, casa, segurança ou saúde. Oro para que o Brasil seja liberto de teologias que enfatizam a saúde, a riqueza, a prosperidade; para que a Igreja do Senhor seja conhecida por SOFRER por Cristo. Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nEle em meio à dor e pobreza, e não em meio à prosperidade”. Somos chamados a sermos abundantes e não simplesmente “prósperos”. Sou a favor dos dons mesmo não tendo os dons que estão na “lista seleta” daqueles que são “usados por Deus” e sei que Deus honra os seus filhos e servos, não nos deixando passar por necessidades, nunca faltando pão a nossa mesa. Mas sou totalmente contra essas duas bandeiras. Sendo assim, sei que na visão de alguns estou perdido e condenado, espero então que Deus tenha misericórdia de mim nos últimos dias. Graça e paz!

Que Deus continue a nos abençoar, capacitar e usar cada dia mais, hoje e sempre,
do seu irmão em Cristo e parceiro de ministério,

“Porque o Senhor assim nos determinou: Eu te constituí para luz dos gentios, a fim de que sejas para salvação até aos confins da terra.” (Atos 13: 47)